Fala-se muito de inteligência artificial nas escolas, mas quase sempre pela negativa — o aluno que usou o ChatGPT para fazer um trabalho, a redacção que não parece humana, o plágio difícil de provar. O que raramente entra na conversa é o outro lado: o que é que estas ferramentas podem fazer pelos professores, pelo lado de dentro da preparação de uma aula.
A verdade é que o tempo que um professor dedica a preparar materiais, criar apresentações, resumir textos longos, elaborar fichas de avaliação ou pesquisar fontes fidedignas é, frequentemente, desproporcional ao impacto que esse trabalho tem na sala de aula.
E é exatamente aí — nessa zona de trabalho invisível e cronicamente subvalorizada — que três ferramentas em particular merecem atenção: o Manus, o Gamma e o NotebookLM.
São três abordagens muito diferentes, para três tipos de problemas muito diferentes. Mas juntas, cobrem uma parte significativa do que torna a preparação de aulas tão trabalhosa.
Gamma: o fim das apresentações que levam horas a fazer
Quem nunca passou três horas a fazer uma apresentação no PowerPoint ou no Google Slides que, no final, ficou menos boa do que o esperado? O Gamma é a resposta directa a esse problema.
A plataforma usa inteligência artificial para gerar apresentações completas a partir de um simples comando de texto. Um professor que queira uma apresentação sobre a Revolução Industrial, com dez slides, estrutura narrativa e imagens, não precisa de fazer mais do que descrever o que quer — e o Gamma trata do resto em segundos.
O resultado não é genérico: professores podem preparar aulas visualmente ricas em minutos, com um acabamento profissional, e sem precisar de ter qualquer experiência em design.
Mas o Gamma vai além dos slides. A ferramenta também é útil para criar conteúdos digitais como páginas web, relatórios visuais e materiais para redes sociais — o que abre possibilidades interessantes para quem queira criar recursos digitais de apoio a uma disciplina, publicar materiais para os alunos consultarem em casa ou preparar comunicações visuais para a escola.
Um dos utilizadores da plataforma descreve a experiência assim: o Gamma reduziu o tempo de criação de apresentações de quatro horas para trinta minutos. Para um professor com cinco turmas e múltiplas disciplinas, essa poupança é real e significativa.
O Gamma tem plano gratuito, com créditos mensais suficientes para uso regular, e planos pagos para quem precisa de mais. As apresentações podem ser exportadas para PowerPoint, Google Slides ou PDF — ou partilhadas directamente através de um link.
NotebookLM: o assistente que lê os teus documentos por ti
O NotebookLM, do Google, é uma ferramenta diferente — e, para muitos professores, pode ser a mais transformadora das três.
A ideia é simples mas poderosa: em vez de responder com base no que a IA aprendeu durante o treino (como faz o ChatGPT ou o Gemini em modo geral), o NotebookLM responde exclusivamente com base nos documentos que o próprio utilizador carrega. PDFs, ficheiros do Google Drive, páginas web, vídeos do YouTube, apresentações — tudo pode ser importado para um “caderno” temático, e a partir daí o utilizador pode conversar com esse conteúdo como se estivesse a falar com alguém que o leu todo.
Para um professor, as aplicações práticas são imediatas. A IA responde sempre com base no conteúdo carregado, com citações diretas e notas de rodapé automáticas — ideal para quem trabalha com metodologias como sala de aula invertida ou aprendizagem baseada em projetos.
Pode carregar o manual escolar, artigos científicos, vídeos de documentários, e pedir ao NotebookLM que explique um conceito de forma simples, que compare duas perspectivas, ou que gere perguntas de avaliação sobre aquele conteúdo específico.
A plataforma permite criar cadernos digitais personalizados para cada aluno, adaptando os materiais de acordo com as necessidades individuais de aprendizagem — facilitando a diferenciação no ensino, com conteúdo ajustado ao ritmo e ao nível de cada estudante.
Um dos recursos mais surpreendentes é a Visão Geral de Áudio: o NotebookLM transforma documentos em episódios de podcast personalizados, narrados por vozes virtuais, com possibilidade de personalizar o tom (informal, académico, didático) e o nível de público — o que o torna particularmente útil para alunos que aprendem melhor a ouvir do que a ler.
O NotebookLM é compatível com mais de 80 idiomas, incluindo português europeu, e está disponível gratuitamente para quem tenha uma conta Google. Para escolas que utilizem o Google Workspace for Education, o NotebookLM está incluído sem custo adicional em todas as edições.
Manus: o agente que executa tarefas por ti
O Manus é a ferramenta mais ambiciosa das três — e também a mais recente. Lançado oficialmente em março de 2025 e desenvolvido pela startup Butterfly Effect, o Manus foi descrito como um avanço significativo por ser capaz de gerir autonomamente tarefas complexas, incluindo escrita e publicação de código. É um agente de IA — ou seja, não responde apenas a perguntas: executa tarefas de ponta a ponta, com autonomia.
Para um professor, o que isso significa na prática? Significa que é possível pedir ao Manus que pesquise um tema em múltiplas fontes e entregue um relatório estruturado, que compile uma bibliografia comentada sobre um período histórico, que crie uma tabela comparativa de recursos, ou que organize um conjunto de documentos numa estrutura lógica.
Em testes documentados, o Manus criou tabelas de livros por categorias com resumos e classificações Dewey — demonstrando a sua capacidade de apoio em pesquisa educativa e bibliográfica.
O Manus funciona bem para tarefas simples e repetitivas que não exijam personalização avançada — como pesquisa, elaboração de relatórios ou recolha de dados — sem necessidade de supervisão constante. Para um professor que precise de preparar uma unidade didáctica com múltiplas fontes e recursos organizados, isso pode representar horas poupadas.
É importante referir que o Manus tem limitações. Os primeiros utilizadores reportaram dificuldades com captchas, fontes pagas e tarefas muito longas ou ambíguas — o que significa que os outputs devem ser sempre validados por um especialista antes de serem usados. Não é uma ferramenta para delegar trabalho crítico sem revisão. É, isso sim, um ponto de partida poderoso.
Por onde começar?
Se és professor e nunca usaste nenhuma destas ferramentas, a curva de entrada é mais baixa do que parece.
O NotebookLM é o ponto de partida mais natural para quem trabalha com muitos documentos e precisa de extrair deles perguntas, resumos ou materiais de estudo — e é totalmente gratuito.
O Gamma é ideal para quem passa demasiado tempo a formatar apresentações e quer recuperar esse tempo para o que realmente importa: pensar no conteúdo.
O Manus é para perfis mais avançados, que queiram automatizar pesquisa e organização de informação em larga escala.
Nenhuma destas ferramentas substitui o professor. O que podem fazer é libertar tempo — e tempo, numa profissão tão exigente, não é um pormenor. É o que permite preparar melhor uma aula, dar mais atenção a um aluno com dificuldades, ou simplesmente terminar o dia com energia para a vida que existe fora da escola.
A tecnologia raramente resolve problemas sozinha. Mas quando está bem escolhida, pode ajudar quem resolve problemas todos os dias a fazê-lo com menos desgaste. E isso, no contexto da educação portuguesa, já seria muito.





