Durante anos, o Fairphone foi praticamente sinónimo de smartphone modular e reparável. A marca holandesa construiu uma reputação sólida ao desafiar o modelo de negócio dominante da indústria, aquele que incentiva a substituição do telemóvel em vez da sua reparação.
Em 2026, o panorama continua a mudar — e de forma cada vez mais significativa.
O que é, afinal, um smartphone modular?
Um smartphone modular é um dispositivo concebido para ser desmontado de forma simples, permitindo a substituição de componentes individuais — bateria, ecrã, câmara, porta de carregamento — sem recorrer a ferramentas especializadas nem a centros de assistência técnica autorizados.
O conceito parece óbvio quando pensamos em computadores desktop, mas nos smartphones tornou-se uma raridade. A tendência para designs ultrafinos, corpos de vidro e colagem interna transformou a maioria dos flagships em peças descartáveis com prazo de validade implícito.
Fairphone: o pioneiro que continua a liderar
O Fairphone 6, lançado em Junho de 2025, é a referência actual do segmento. A 599€ na Europa, a empresa promete 8 anos de actualizações de segurança e 7 actualizações do sistema Android — suporte garantido até 2033 — e disponibiliza peças de substituição directamente na sua loja online.
Equipado com processador Snapdragon 7s Gen 3, câmara principal de 50 MP com estabilização óptica, bateria amovível de 4.415 mAh e classificação IP55, o Fairphone 6 representa a aposta mais equilibrada da marca até agora. Em Portugal, está disponível na Amazon.es e em retalhistas especializados.
O Fairphone continua a não ser perfeito. As câmaras ficam aquém dos grandes concorrentes, o processador é de gama média-alta mas não de topo, e o design é claramente funcional em detrimento do apelo estético. Para muitos consumidores portugueses, estes compromissos continuam a ser difíceis de aceitar.
Os novos players que chegaram ao mercado
Em 2025 e 2026, surgiram alternativas concretas que merecem atenção:
Framework Phone 1: A empresa que revolucionou os laptops modulares entrou no mercado dos smartphones com um dispositivo baseado em Android AOSP, com módulos intercambiáveis para câmara, bateria e conectividade. Disponível nos EUA e a chegar à Europa ainda em 2026, é a aposta mais ambiciosa do segmento.
Shiftphone 8: A marca alemã Shift lançou o seu oitavo modelo com foco em reparabilidade e materiais reciclados, com uma pontuação iFixit de 9,2 em 10. Ainda com distribuição limitada em Portugal, mas com envio directo da Alemanha.
Teracube 4e: Direcionado ao mercado de entrada, este modelo norte-americano proporciona uma garantia de quatro anos e peças acessíveis, sendo uma opção interessante para quem não quer gastar mais de 300 euros.
Nenhum destes dispositivos ameaça diretamente o domínio do iPhone ou do Samsung Galaxy no volume de vendas. Mas o seu crescimento mostra que existe uma fatia de mercado disposta a pagar por durabilidade e autonomia de reparação.
A legislação europeia como motor de mudança
Um dos factores mais importantes para perceber a evolução deste mercado em 2026 é o quadro regulatório europeu. O Regulamento de Conceção Ecológica da UE, que entrou em vigor de forma faseada a partir de 2023, obriga os fabricantes de smartphones a disponibilizar peças de substituição por um mínimo de sete anos após o lançamento do produto.
Isto forçou gigantes como Samsung, Apple e Xiaomi a abrir programas de reparação próprios — o Self Repair Programme da Apple e o programa equivalente da Samsung são exemplos directos desta pressão regulatória. Ainda não são modulares no sentido estrito, mas representam um passo na direcção certa.
Em Portugal, o impacto desta legislação é ainda moderado ao nível do consumidor final, mas as lojas de reparação independentes — muito populares no país — beneficiaram claramente de um maior acesso a peças originais.
Pontuação iFixit: o novo critério de compra?
A iFixit, plataforma de referência mundial em reparabilidade, tornou-se num critério de compra cada vez mais consultado por consumidores informados. Em 2026, a pontuação iFixit começa a aparecer em comparativos de smartphones em publicações europeias, ao lado de benchmarks de câmara e autonomia de bateria.
O Fairphone 6 mantém a pontuação perfeita de 10/10, como todas as gerações anteriores da marca. O iPhone 16 obteve 6/10, uma melhoria face às gerações anteriores graças à transição para vidro traseiro substituível.
O Samsung Galaxy S25 Ultra alcançou 5/10 — o melhor resultado da Samsung em dez anos, reconhecido pela própria iFixit, mas ainda longe do que seria desejável.
Estes números importam e começam a influenciar decisões de compra, especialmente entre consumidores mais jovens e conscientes do impacto ambiental dos seus dispositivos.
O consumidor está pronto?
Portugal tem uma das taxas de utilização prolongada de smartphones mais altas da Europa Ocidental — por razões económicas, muitos portugueses mantêm os seus dispositivos por três, quatro ou mais anos.
Isso torna o mercado particularmente receptivo à ideia de reparabilidade, mesmo que a adopção de marcas como o Fairphone continue a ser nicho.
O problema está no acesso: as peças de substituição continuam difíceis de encontrar em lojas físicas nacionais, os tutoriais em português europeu são escassos, e a cultura do “leva a uma loja” ainda domina. Há espaço enorme para crescimento, mas falta ainda um ecossistema local de suporte.
Conclusão: o futuro é modular – mas devagar
A resposta à pergunta do título é sim: há vida para além do Fairphone. O Framework Phone, o Shiftphone e a pressão legislativa europeia estão a redefinir o que se espera de um smartphone responsável. Mas a revolução modular não vai acontecer da noite para o dia.
Os grandes fabricantes movem-se por legislação e por pressão do consumidor — e essa pressão está a crescer, mas ainda a um ritmo lento.
Para o consumidor português que quer fazer uma escolha mais consciente em 2026, o Fairphone 6 é a opção mais madura, mais acessível e mais bem suportada do segmento.
Para os mais aventureiros, o Framework Phone pode ser a alternativa que o mercado precisava. O importante é que, pela primeira vez em muito tempo, há mesmo onde escolher.




