Imagina escrever uma frase como «uma balada melancólica sobre Lisboa à chuva, com guitarra portuguesa e voz feminina» e receber, segundos depois, uma música completa, com letra, melodia e produção. É exactamente isto que o Suno e o Udio prometem — e, na maior parte das vezes, cumprem.
Estas duas plataformas de geração musical por inteligência artificial tornaram-se, nos últimos meses, nos nomes mais falados do sector. Mas será que a criatividade humana está mesmo a ser substituída? Ou estamos apenas perante uma ferramenta muito sofisticada com limitações que nem sempre são óbvias à primeira vista?
O que são o Suno e o Udio, afinal?
O Suno foi lançado em 2023 pela startup homónima, sediada em Cambridge, Massachusetts, e rapidamente ganhou tração ao permitir a qualquer utilizador gerar faixas musicais completas a partir de simples descrições textuais. A versão gratuita oferece um número limitado de créditos diários, enquanto os planos pagos desbloqueiam mais funcionalidades e uso comercial.
O Udio, por sua vez, surgiu em 2024 como um concorrente direto, fundado por ex-investigadores do Google DeepMind. A sua diferenciação passa por uma maior fidelidade sonora e um controlo mais granular sobre os elementos musicais — tempo, tonalidade, estrutura.
Ambas as ferramentas utilizam modelos de aprendizagem profunda treinados em enormes bibliotecas de música existente, o que levanta, desde logo, questões que vão muito além da usabilidade.
Na prática: o que conseguem (e o que falham)
Testámos ambas as plataformas com vários prompts em português, incluindo referências culturais nacionais. O Suno gerou, com relativa facilidade, faixas no estilo do fado moderno, pop portuguesa dos anos 90 e até algo próximo do pimba — o que, convenhamos, não é necessariamente um elogio.
O Udio mostrou-se mais rigoroso na qualidade sonora, com produções que soam mais «profissionais», mas por vezes peca por criar letras em inglês mesmo quando o prompt está em português, o que é uma limitação relevante para o utilizador lusófono.
As falhas mais comuns em ambas as plataformas incluem:
- Letras com erros gramaticais ou semanticamente incoerentes em línguas que não o inglês
- Estruturas musicais repetitivas após os primeiros 30 segundos
- Dificuldade em manter um «fio condutor» narrativo ao longo de toda a música
- Vozes artificiais que, em certos géneros, soam claramente sintéticas
Ainda assim, para prototipagem rápida, criação de jingles, trilhas sonoras para vídeos ou simplesmente exploração criativa, o resultado é frequentemente surpreendente.
O elefante na sala: os direitos de autor
Nenhum artigo sobre o Suno ou o Udio estaria completo sem abordar a questão legal que paira sobre todo o sector. Em Junho de 2024, a Recording Industry Association of America (RIAA) apresentou queixas contra ambas as empresas, alegando que os seus modelos foram treinados com música protegida por direitos de autor sem autorização.
Este processo é central para o debate em torno da IA generativa na música. Se os modelos foram alimentados com trabalhos de artistas reais sem compensação, quem lucra com o produto final? E quando um utilizador português usa o Suno para criar uma música comercial, quem detém os direitos dessa obra?
A resposta, por enquanto, é incerta. O Suno afirma que as músicas geradas pelos utilizadores são propriedade destes (nos planos pagos), mas os litígios em curso podem alterar radicalmente este panorama nos próximos meses.
O impacto no sector musical português
Em Portugal, o impacto ainda é pouco visível no mainstream, mas começa a sentir-se em nichos como a publicidade, o marketing de conteúdos e os criadores de vídeo no YouTube e TikTok. Pequenas agências de comunicação já utilizam estas ferramentas para produzir músicas de fundo sem recorrer a bancos de sons pagos.
Para músicos independentes, o cenário é mais ambivalente. Por um lado, estas ferramentas podem democratizar a produção musical — um compositor sem meios para contratar um estúdio pode agora dar forma às suas ideias de forma mais acessível. Por outro, representam uma concorrência direta para profissionais de produção musical, composição e até para cantores de sessão.
A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) ainda não se pronunciou formalmente sobre o uso destas plataformas, mas o tema deverá entrar na agenda regulatória europeia em breve, no contexto da aplicação do AI Act da União Europeia.
Ferramenta ou substituto?
A questão mais pertinente não é se o Suno e o Udio fazem música boa — fazem, com ressalvas. A questão é o que fazemos com isso.
Estas plataformas são extraordinariamente úteis como ferramentas de apoio à criatividade, especialmente para quem não tem formação musical. Mas apresentam como substitutos do talento humano, da expressão artística genuína ou da conexão emocional que a melhor música transmite? Ainda não.
A IA consegue imitar padrões, replicar estilos e gerar conteúdo competente. Mas a música que nos move, que conta histórias reais, que nasce da experiência humana — essa continua a ser insubstituível, pelo menos por agora.
O maior risco não é a IA substituir os músicos. É normalizarmos um ecossistema onde a música se torna descartável, produzida em massa e sem alma — e acharmos que isso é progresso.





