Inteligência Artificial

Porque é que a inteligência artificial “inventa” respostas erradas com total confiança

Porque é que a inteligência artificial "inventa" respostas erradas com total confiança

Perguntas a um chatbot uma data, um nome, uma referência bibliográfica. A resposta chega em segundos, bem escrita, cheia de detalhes concretos e sem qualquer hesitação.

E está completamente errada.

Este fenómeno tem nome: alucinação. E, ao contrário do que a palavra sugere, não é um erro aleatório nem um defeito técnico que vai desaparecer com a próxima atualização.

Porque é que a inteligência artificial continua a inventar respostas com tanta confiança?

Não é um erro técnico. É um exame mal desenhado

Um estudo publicado pela própria OpenAI em 2025 mudou a forma como se entende este problema.

Os investigadores compararam os modelos de linguagem a um aluno perante um teste de escolha múltipla.

Quando não sabe a resposta, um aluno esperto arrisca uma opção. Uma resposta errada e uma resposta em branco valem exatamente o mesmo: zero pontos. Arriscar nunca custa mais do que admitir que não sabe.

É exatamente assim que a maioria dos sistemas de avaliação de IA funciona.

Os modelos aprendem a apostar, não a ser honestos

Segundo a OpenAI, nove em cada dez dos principais testes usados para avaliar modelos de linguagem recompensam uma resposta errada da mesma forma que recompensam um “não sei”: com zero pontos.

O resultado é previsível. Um modelo treinado para maximizar a pontuação aprende que arriscar compensa sempre, mesmo quando a probabilidade de acertar é baixa.

Dizer “não sei” deixou de ser uma opção racional para o sistema, mesmo quando seria a resposta mais honesta.

Quando a fantasia tem consequências reais

Em 2024, um tribunal canadiano condenou a Air Canada a reembolsar um passageiro depois de o chatbot da empresa ter inventado uma política de tarifas de luto que nunca existiu.

A companhia tentou argumentar que não podia ser responsabilizada pelas palavras do próprio chatbot. O tribunal discordou: um sistema automático continua a ser parte do site da empresa, informação inventada incluída.

O caso tornou-se uma referência sobre um problema que já não é apenas académico.

Algumas alucinações talvez nunca desapareçam

A investigação da OpenAI aponta ainda para um limite estrutural. Há factos que aparecem uma única vez nos dados de treino, como a data de nascimento de uma pessoa pouco conhecida.

Para esse tipo de informação rara, sem padrão que o modelo possa generalizar, algum nível de erro é praticamente inevitável, por melhor que seja o modelo.

Como te podes proteger

  • confirma sempre datas, nomes e números concretos numa segunda fonte;
  • pede ao modelo para explicar o raciocínio por trás da resposta, o que muitas vezes revela a fragilidade da informação;
  • desconfia especialmente de respostas muito específicas sobre temas pouco divulgados;
  • lembra-te de que a fluência do texto não é garantia de rigor.

Porque isto vai continuar a ser relevante

A confiança com que um sistema de IA responde não diz nada sobre se a resposta está certa.

Perceber isto não é motivo para deixar de usar estas ferramentas. É motivo para as usar com o mesmo espírito crítico que aplicarias a qualquer fonte que nunca admite não saber.